Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais? Não, a sociedade e as pessoas mudaram. Mas também é verdade que nos orgulhamos de permanecer fiéis ao que fomos, um dia, quando sonhávamos mudar o mundo. Quem é jovem, hoje, e se nega a perder a esperança, pode compreender e se conectar, afetivamente, com a geração que foi às ruas em 1968 contra a ditadura, defendendo liberdade e democracia. Muitas personagens que se uniram naqueles dias ainda nos emocionam e inspiram. Entre elas estava Benedita da Silva, uma jovem mulher negra, que atravessaria as décadas seguintes do mesmo lado da rua e da história, com luz própria e essa voz tamanha que Deus lhe deu, e com a coragem serena que o destino concede aos resilientes, num país racista, patriarcal, fundado em desigualdades profundas.
Nos anos seguintes, Benedita esteve nas ruas pelas Diretas, pela Demarcação das Terras Indígenas, pelo Fora Collor, pela Constituinte, sempre atuando contra o racismo, pelos direitos das mulheres, pelos trabalhadores, pelas causas democráticas. Décadas depois, em 21 de setembro de 2025, lá estava ela, na manifestação contra a PEC da Blindagem e a Anistia aos Golpistas. Ao longo desse tempo, a partir de 1982, foi vereadora, deputada constituinte, senadora, governadora, deputada federal. Morando na favela, trabalhando como doméstica, animada por convicções religiosas profundas, sua consciência política nasceu da experiência popular, do sentimento de que a vida poderia ser melhor se o respeito e a solidariedade prevalecessem, e às crianças fossem dadas as mesmas oportunidades de educação, saúde, segurança, lazer, cultura e amor. Não era muito difícil compreender isso, é a lição que se colhe da observação e do convívio. Acontece que essas ideias tão simples e fortes cobram um preço à consciência: o sentido de responsabilidade. É como o sapato apertado, a lembrança dolorosa, a falta de ar: a vontade de justiça e o compromisso com os outros não cabem no sono tranquilo. A chama da indignação e o senso do dever mobilizaram a energia inesgotável de Benedita, que nunca mais parou. Ela colocou sua vida a serviço da coletividade e compreendeu que atuar na política seria o modo mais efetivo de ajudar a promover as mudanças inadiáveis.
Algumas vezes, Benedita nos pediu voto e apoio. Hoje, somos nós, cidadãos e cidadãs, membros da sociedade civil, que lhe pedimos: ofereça seu nome como pré- candidata ao Senado pelo Rio de Janeiro, em 2026. O Senado tornou-se estratégico para barrar ameaças ao Judiciário e ao Estado democrático de direito. A situação é grave. Não é hora para aventuras. Só a unidade de todos e todas as democratas nos levará à vitória com os partidos, mas muito além deles. Bené será o nome de um movimento original, capaz de mobilizar todos os setores. Você, Bené, não precisa dizer quem é, nem provar nada. Não há nenhuma liderança que possa se dirigir ao conjunto da sociedade, além das fronteiras partidárias, com autoridade comparável à sua, construída ao longo de uma vida pública imaculada e admirável. Sua voz não alcança apenas ilhas religiosas, bolhas ideológicas, nichos corporativos e agremiações políticas. Ela ressoa na imensa praça pública hoje sequestrada por algoritmos teleguiados, que semeiam ódio e divisão. Sua voz vai afastar os escombros de um passado que insiste em cancelar o futuro. Sua pré-candidatura significará um convite para a festa da democracia: todo mundo é bem-vindo, sem crachá. O povo e suas causas precisam ocupar o Senado e retomar a praça.